sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O resto é silêncio - Érico Veríssimo, 1943

Já faz algum tempo que li esse livro, mas lembro como fiquei encantada com ele. Não é uma das obras mais conhecidas do Veríssimo, mas sem dúvida ganha lugar entre as melhores. O eixo central da história parte de um suposto suicídio de uma moça, que cai de cima de um prédio. Uma das coisas mais legais de ler Veríssimo, nesse caso principalmente, é que o espaço onde acontece a história é a cidade de Porto Alegre, nas redondezas da Praça da Alfândega. O prédio em questão é o Edifício Imperial, onde foi o antigo Cinema Imperial. Lembro-me que à época da leitura, eu passava lá em frente e ficava olhando pro alto do prédio, realizando a história. Também sempre fico olhando pra praça e imaginando que ela foi um importante espaço de reflexão do autor, me sinto comovida com isso. Mas enfim, a história é multidimensional, na medida em que parte de um fato específico e vai mostrando vários núcleos de personagens e como cada um teve contato com o acontecido e a impressão que tiveram. E, claro, a história é cercada de um realismo singelo e tocante, com passagens imensamente filosóficas, daquela filosofia verdadeira, de todo dia, e não daquela plástica, teórica e puramente ideológica.
Segue fichamento:



-“Olha o mundo com uma curiosidade temperada de indolência e com uma malícia misturada de ternura. É tolerante e tem horror à violência. Nutre um respeito sagrado  pela liberdade de pensamento e expressão do próximo. Prefere a contemplação à ação e quase  sempre está ausente do lugar em que seu corpo se encontra. Vê e interpreta a vida mais como poeta que como profeta. Ama a limpidez e a simplicidade de expressão. Não gosta de palavras grandes e dos gestos dramáticos. Exteriormente parece um homem frio, reservado e calculista; por dentro... um sentimental e um romântico que tem pudor tanto da lágrima como da risada aberta. Como romancista, preocupa-se principalmente com seres e problemas humanos. É muito ignorante e não me parece forte em matéria de idéias gerais. Acho-o, no entanto, dotado duma intuição quase milagrosa e duma imaginação colorida. Diante do problema da morte, sua atitude é de perplexidade. Reconhece o mistério, sim, mas concorda em que não nos é lícito quebrar o Grande Silêncio para dizer uma puerilidade.” (pág. 61)

“Tônio agora olhava o crepúsculo. O horizonte passava do ouro novo para o ouro velho que pouco a pouco ia tomando tonalidades de cobre.” (pág. 59)

“No momento em que o drama da guerra deixa pequenos e apagados todos os dramas da literatura, que interesse poderá oferecer a história dum homem ou grupo de homens? Será lícito repisar os velhos e melancólicos problemas da vida quotidiana? Por outro lado, era o seu próprio espírito que produzia o contraveneno: Acima dos ditadores, de toda violência, de todas as guerras, existe algo de mais forte, algo de eterno: É a vontade que o povo tem de sobreviver, de acreditar, de renovar-se. Há ainda o drama essencial do homem, que pertence a todas as épocas, que mora na alma de cada criatura, que está presente em cada simples minuto da vida. Acontece ainda – refletia Tônio – que nossas almas têm estranhas veredas. Podemos ouvir ou ler, chocados em maior ou menos grau, a notícia dum massacre de crianças, e esquecer o fato no instante seguinte, continuando a viver como se nada tivesse acontecido. No entanto, se na rua um amigo estimado nos nega o cumprimento, voltamos para casa abalados e passamos uma noite insone a nos revolver na cama e a pensar no ‘fato’, com uma impressão de catástrofe.” (pág. 55)

“Arte pelo amor da vida. Pinta-se, compõe-se música, escreve-se romance ou poesia, faz-se escultura, enfim, praticam-se todas as formas de arte, parece-me, num desejo de imitar a vida, corrigi-la, compreendê-la, ampliá-la ou fruí-la da maneira mais sensualmente larga. E não devemos esquecer que nisso, como em tudo mais, há sempre a presença do mistério.” (pág. 62)
-“Penso que as criaturas humanas querem antes de mais nada durar e ser felizes, principalmente durar. Para a maioria não se trata apenas de durar aqui na terra, mas de continuar na ‘outra vida’, passar do plano do tempo para o da eternidade. Creio que a função principal do romancista é contar a história do homem na sua luta em prol da sobrevivência e da felicidade...” (pág. 63)
-“Se um escritor tem uma história para narrar – disse – não vejo razão para que não a conte em termos claros, a fim de que o maior número possível de pessoas a leia e compreenda. Não participo desse desejo orgulhoso e aristocrático de hermetismo... Acho desonesto o truque de turvar as águas para dar a impressão de profundidade. Não, Nora, a vida já é suficientemente complexa... a gente não deve inventar complicações artísticas.” (pág. 71)

“Aqueles efebos pareciam os ‘donos da música’. Sentavam-se quase sempre no chão, as pernas dobradas à maneira oriental, as mãos enlaçando os joelhos. Gostavam de Debussy, de Ravel e tinham delíquios quando falavam em Serge Lifar ou em Nijinsky. Aquelas reuniões eram uma feira de vaidades, de sensibilidades assanhadas. Notava-se naquela gente um desejo de parecer boêmia e original, de fugir a tudo quanto fosse burguês. Havia também as modas. A época de Bach, por exemplo. De repente como que descobriam o homem e cada qual tentava classificá-lo, explicá-lo. Cantarolavam trechos de tocatas, fugas e prelúdios. Alguém ia para o piano. Havia orgias de Bach. Depois Bach passava a ser um velho maníaco, um matemático frio e  lá surgia uma onda de Prokofief. Como podiam aquelas criaturas ser tão artificiais? Contemplando-as, em cada gesto, em cada testa, em cada olhar, Marina via escrita em berrantes maiúsculas a palavra EU. Por todos os lados – EU. Vaidades superexitadas, desejos de fama, malícia e maldade ali se misturavam desconcertantemente com ingenuidades inacreditáveis. Teriam esses ‘artistas’ vergonha de serem humanos? Seria que durante as vinte e quatro horas de cada dia nunca tiravam as máscaras, não faziam gestos humildes, não diziam ou pensavam coisas simples, quotidianas? Marina sabia que sim. No fundo não passavam de pobres diabos que andavam atrás do dinheiros para o fim do mês e dum alimento para as suas vaidades.” (pág. 112/113)

“Quisera ter fé religiosa ou acreditar firmemente em alguma doutrina política... Mas tinha uma incapacidade absoluta para se enquadrar em partidos ou seitas. Reconhecia, com certa má vontade, que era indispensável uma fé firme para realizar grandes coisas. Se ele tivesse essa fé num deus ou numa idéia, haveria de orientar seus livros no sentido dessa fé política ou religiosa, não porque achasse que a arte deve ter uma coloração sectária, mas porque reconhecia estar o mundo vivendo um momento excepcional em que a ninguém é lícito ficar indiferente. O mundo estava doente. Era necessário curá-lo para que depois as criaturas humanas pudessem entregar-se à bela e simples tarefa de viver, de prosseguir na sua busca de beleza e de bondade. Mas... e se não houvesse cura possível? Se o homem, por uma lei inelutável, tivesse de ser sempre o lobo do homem?” (pág.169)

“D. Herta parecia resolvida a levar adiante a palestra.
- E a guerra doutor, cada vez mais braba, não?
Ximeno Lustosa depôs a xícara, tirou os óculos, limpou as lentes no guardanapo e disse, com voz dogmática:
- A guerra é uma barbárie.
E continuou a mastigar o seu pão-cabrito, com ar de quem havia resolvido o magno problema, dizendo sobre ele a palavra definitiva.” (pág.207)

“- Nunca nos livramos por completo das cinzas do borralho – prosseguiu o escritor. – É por essa razão que não podemos gozar a festa de maneira completa. Pensamos nas pobres criaturas que ficaram na cozinha, ou que estão olhando o baile do lado de fora. E temos pena. Pena e medo... não sei. Talvez remorso.
Rita arregalou os olhos:
- Remorso de quê? Dançar não é nenhum crime.
- Quando não se dança pisando nos outros – disse Nora.
- Temos ainda a história dos sapatinhos que Cinderela deixou na escada – continuou Tônio. – E as pobres criaturas que torturam os próprios pés, que são capazes até de cortá-los a faca, para que eles consigam entrar nos sapatos encantados. Todos querem ser a ‘eleita’ do príncipe.” (pág. 222)

“O liberalismo redundou no capitalismo e foi o capitalismo que deu origem ao socialismo. Levar o socialismo a sério é o mesmo... o mesmo que, por exemplo, adorar a sulfanilamida como uma divindade só porque ela pode combater uma infecção.” (Fala de Marcelo, pág. 292)

“- Você é muito menino, ainda não sabe de certas coisas... Mas viver é morrer em prestações. Cada criança que nasce assina com a vida um contrato de compra e venda... e a gente nunca sabe o prazo certo do vencimento. – A sua dissertação fora interrompida por acessos de tosse em que o homenzinho ficava vermelho, engasgado, enquanto sua boca expelia para todos os lados um chuveiro de saliva. Era preciso nada menos de cinco minutos para ele voltar à calma e recomeçar a exposição. – Mas como eu ia dizendo, a criança assina o contrato e o vendedor, que é a Morte, passa a cobrar as prestações anualmente. Cada ano a gente morre um pouco. Quando vai ficando velho, as prestações já não são anuais, e sim semanais. Por fim o contrato se vence. O pior de tudo é que a gente continua sem saber o que comprou... Por acaso você sabe?” (pág. 299)


“Tônio viu uma expressão dolorosa no rosto do filho. Adivinhou-lhe os pensamentos e os sentimentos. Na alma de Gil havia um menino morto. De resto todos traziam um morto na memória. Cada ser humano tinha a sua princesa morta. Tônio descobria uma acentuada tendência necrófila na maioria das pessoas. Apegadas a coisas e seres defuntos. Em vez de imaginar que os seus mortos continuavam a viver em alguma parte do universo, como um espírito, uma idéia, uma árvore, uma flor, um fruto, um talo de relva ou uma pedra, ficavam-se a idolatrar e arrastar ao longo de toda a vida um cadáver, um corpo em processo de dissolução, um esqueleto, uma imagem macabra”. (pág. 385)

“Quantos milhares de homens tinham lutado, sofrido e morrido para manter as fronteiras da pátria? Que soma de sacrifício, de fé, esperança e coragem havia sido necessária para que o Brasil continuasse como território e como nação?
Sim, ele não devia esquecer os homens que tinham construído cidades e desbravado sertões, repelido o invasor e criado ou consolidado uma tradição.
A essas reflexões o espírito de Tônio se enchia de quadros e cenas, vultos e clamores. Ele via o primeiro trigal e a primeira charqueada. Pensava na solidão das fazendas e ranchos perdidos nos escampados, nas mulheres de olhos tristes a esperar os maridos que tinham ido para a guerra ou para a áspera faina do campo. Imagina os invernos de minuano, as madrugadas de geada, as soalheiras do verão e glória das primaveras. As lendas que iam surgindo nos matos, nas canhadas, nos sovacões da  terra, nos aldeamentos dos índios e nas missões. As povoações novas que surgiam e as antigas que cresciam, transformando-se em cidade. Refletia também sobre o fascínio das planuras largas que convidavam às arrancadas e à vida andarenga. E sobre a rude monotonia da rotina campeira – parar rodeio, laçar, domar, carnear, marcar, tropear, arrotear a terra, plantar, esperar, colher. Pensava também na luta do homem contra os elementos e as pragas. Por sobre tudo isso, sempre e sempre o vento e a solidão, os horizontes sem fim e o tempo. A cada passo, o perigo da invasão, o tropel das revoluções e das guerras. E ainda as criaturas tristes e pacientes, esperando, vendo o tempo passar com o vento, e o vento agitar os coqueiros e os coqueiros acenar para as distâncias.
Havia ainda mulheres de luto pelos homens mortos na última guerra quando chegaram os primeiros colonos da Alemanha e mais tarde da Itália. De novo processaram-se misturas. Vieram novas revoluções. Cresceram as cidades e os cemitérios. Os primeiros trilhos da estrada de ferro foram deitados no solo do Rio Grande. Ergueram-se os primeiros postes telegráficos. E o vento eterno levou para as nuvens a fumaça das locomotivas.
Os olhos do escritor tornaram a pousar na platéia. Para quantas daquelas criaturas a sinfonia possuía um sentido, dizia alguma coisa? Ele via ali no teatro muitos netos, bisnetos e trinetos dos colonos alemães e italianos. Eram industriais, negociantes, médicos, advogados, engenheiros, jornalistas. O sangue alemão e italiano cruzara-se com o da gente da terra. O resultado fora aquela diversidade de tipos, nomes e feições.
A guerra – refletiu Tônio – como os cataclismas pré-históricos que revolveram a crosta terrestre, misturando as camadas geológicas, para maior confusão dos arqueólogos, tinha agora de tal modo sacudido o mundo, que ali no São Pedro se viam refugiados poloneses, judeus, alemães, checoslovacos e austríacos ombro a ombro com descendentes de heróis e caudilhos, bugres e contrabandistas, tropeiros, peões e estância e soldados. E toda aquela gente escutava a mensagem que um homem feio e atribulado escrevera numa terra distante, havia quase cento e cinqüenta anos.
E desse estofo – concluía Tônio – era feito o Brasil. Ele acreditava no futuro de sua terra e de sua gente. Estava serenamente certo de que algo de belo e grandioso se encontrava ainda pela frente...
A orquestra nesses instante rompeu num compasso marcial. (402/403)

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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Todos os nomes - José Saramago, 1997

    Saramago é sempre Saramago. Mas é difícil falar sobre um autor né? Esses tempos estava olhando uma entrevista do Saramago, no programa Roda Viva, de 1997. Achei curiosamente absurdo como os “entrevistadores” faziam perguntas ao mesmo tempo que afirmavam veredictos sobre o caráter do nosso autor. O Saramago, como gênio que foi (e que continua a ser através de sua magnífica obra) de forma muito elegante sempre tentava explicar da maneira mais pacienciosa do mundo. Mas realmente fiquei com vergonha pelo povo brasileiro de ver verdadeiros bobalhões fazendo perguntas tolas, do tipo, “Saramago, eu vejo que nesses seus últimos livros você faz uma espécie de provocação, uma birra com Deus, é isso?”. Porra né. Saramago foi ateu, ele se utiliza do sarcasmo e da ironia quando fala de Deus, lançando luz à forte sustentação da sua falta de fé professa. Na resposta educada do autor ele tenta dizer, em síntese, que não poderia se colocar na posição de provocador de Deus, pois não cria nele. Meio óbvio né? E assim foi quase todo o debate, com perguntas desse tipo, salvos alguns entrevistadores que formularam coisas melhores. (Para quem quiser assistir a entrevista aqui vai o link: http://tvcultura.com.br/rodaviva/programa/PGM0584).
    Mas enfim, eu adorei esse livro. Ele trata de uma excêntrica história de amor. Trata também, e mais uma vez, das sensibilidades e das contradições da alma humana. Um funcionário de um arquivo subitamente se vê vítima de uma verdadeira obsessão pelo verbete de determinada mulher. Dali em diante ele empreende uma verdadeira cruzada para saber tudo o que puder sobre aquela mulher. Suas descobertas vão se tornando tanto mais intrigantes quanto mais surpreendentes.

SARAMAGO, José. Todos os nomes. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 279 p.

Em todo o caso não seria justo esquecer as dificuldades dos vivos. É mais do que certo e sabido que a morte, quer por incompetência de origem quer por má-fé adquirida na experiência, não escolhe as suas vítimas consoante a duração das vidas que viveram, procedimento este, aliás, entre parêntesis se diga, que, a dar crédito à palavra das inúmeras autoridades filosóficas e religiosas que sobre o tema se pronunciaram, acabou por produzir no ser humano, reflexamente, por diferentes e às vezes contraditórios caminhos, o efeito paradoxal duma sublimação intelectual do temor natural da morte. p. 15-16

O Sr. José tem o louvável pudor daqueles que não andam por aí a queixar-se dos seus transtornos nervosos e psicológicos, autênticos ou imaginados [...].p. 22

[...] é por de mais sabido que o espírito humano, muitas vezes, toma decisões cujas causas mostra não conhecer, sendo de supor que o faz depois de ter percorrido os caminhos da mente com tal velocidade que depois não é capaz de os reconhecer e muito menos reencontrar. p. 24

[...] de facto não há nada que mais canse uma pessoa que ter de lutar, não com o seu próprio espírito, mas com uma abstração. p. 27
A prudência tentava retê-lo, segurá-lo pela manga, mas como toda a gente sabe, ou devia saber, a prudência só é boa quando  se trata de conservar aquilo que já não interessa [...]. p. 35

Quanto aos pensamentos metafísicos, meu caro senhor, permita-me que lhe diga que qualquer cabeça é capaz de os produzir, o que muitas vezes não consegue é encontrar as palavras. p. 39

Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós. p. 42

Quem somo nós para falar de conseqüências, se da fila interminável delas que incessantemente vêm caminhando na nossa direcção apenas podemos ver a primeira. p. 48

[...] perdoa-se porque se ama, ama-se porque se perdoa [...]. p. 63

[...] no casamento existem três pessoas, há a mulher, há o homem, e há o que chamo a terceira pessoa, a mais importante, a pessoa que é constituída pelo homem e pela mulher juntos, se um dos dois comete adultério, por exemplo, o mais ofendido, o que recebe o golpe mais fundo, por muito incrível que isto lhe pareça, não é o outro, mas esse outro outro que é o casal, não é o um, mas o dois [...]. p. 63-64

Entre matar e deixar morrer, preferi matar. p. 65

[...] é o que sucede quando assistimos a uma conversa e não prestamos atenção, sempre o mais importante nos escapa. p. 66

[...] deve haver na minha cabeça, e seguramente na cabeça de toda a gente, um pensamento autônomo que pensa por sua própria conta, que decide sem a participação do outro pensamento, aquele que conhecemos desde que nos conhecemos e que tratamos por tu, aquele que se deixa guiar por nós para nos levar aonde cremos que conscientemente queremos ir, mas que, afinal de contas, poderá ser que esteja a ser conduzido por outro caminho, noutra direcção, e não para a esquina mais próxima, onde um bando de perdizes nos espera sem que o saibam, mas sabendo nós, enfim, que o que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca e que é preciso andar muito para alcançar o que está perto. p. 68-69

[...] também os pássaros cantam e não sabem porquê. p. 71

[...] o princípio de um desenho como o de todas as vidas, feito de linhas quebradas, de cruzamentos, de intersecções, mas nunca de bifurcações, porque o espírito não vai a lado nenhum sem as pernas do corpo, e o corpo não seria capaz de mover-se se lhe faltassem as asas do espírito. p. 74

[...] as vidas são como os quadros, precisaremos sempre de olhá-los quatro passos atrás, mesmo se um dia chegamos a tocar-lhes a pele, a sentir-lhes o cheiro, a provar-lhes o gosto. p. 74

Provavelmente, quanto maior é a diferença, maior será a igualdade, e quanto maior é a igualdade, maior a diferença será. p. 97

[...] nunca se sabe, tantas têm sido as vezes na vida que uma pequena viração acabou em furacão destruidor. p. 116

O diálogo fora difícil, com alçapões e portas falsas surgindo a cada passo, o mais pequeno deslize poderia tê-lo arrastado a uma confissão completa se não fosse estar o seu espírito atento aos múltiplos sentidos das palavras que cautelosamente ia pronunciando, sobretudo aquelas que parecem ter um sentido só, com elas é que é preciso mais cuidado. Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa, o significado fica-se logo por aí, é direto, literal, explícito, fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer, ao passo que o sentido não é capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos, de direcções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma estrela quando se põe a projectar marés vivas pelo espaço fora, ventos cósmicos, perturbações magnéticas, aflições. p. 134-135

A solidão, Sr. José, declarou com solenidade o conservador, nunca foi boa companhia, as grandes tristezas, as grandes tentações e os grandes erros resultam quase sempre de se estar só na vida, sem um amigo prudente a quem pedir conselho quando algo nos perturba mais que o normal de todos os dias. p. 141

Eu, triste, o que se chama propriamente triste, senhor, não creio que o seja, talvez minha natureza seja um pouco melancólica, mas isso não é defeito [...]. p. 141

[...] a melhor maneira de defender os segredos próprios ainda é guardar respeito aos segredos alheios. p. 147-148

[...] a pele é tudo quanto queremos que os outros vejam de nós, por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos. p. 157

A sabedoria dos tectos é infinita, Se és um tecto sábio, dá-me uma idéia, Continua a olhar para mim, às vezes dá resultado. p. 157

Homem, não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo, são duas escuridões separadas por uma pele, aposto que nunca tinhas pensado nisto, transportas todo o tempo  de uma lado para outro uma escuridão, e isso não te assusta, [...] meu caro, tens que aprender a viver com a escuridão de fora como aprendeste a viver com a escuridão de dentro. p. 177

[...] o tempo psicológico não corresponde ao tempo matemático. p. 179

[...] as velhas fotografias enganam muito, dão-nos a ilusão de que estamos vivos nelas, e não é certo, a pessoa para quem estamos a olhar já não existe , e ela, se pudesse ver-nos, não se reconheceria em nós. p. 181

[...] o que eu havia dito não passava duma frase de efeito, oca, dessas que parecem profundas e não têm nada dentro. p. 199

[...] a memória, que é susceptível e não gosta de ser apanhada em falta, tende a preencher os esquecimentos com criações de realidade próprias, obviamente espúrias, mas mais ou menos contíguas aos factos de cujo acontecer só lhe havia ficado uma lembrança vaga, como o que resta da passagem duma sombra. p. 201

Nos países civilizados não existe esta prática absurda dos lugares cativos, esta idéia de considerar para sempre para sempre intocável qualquer sepultura, como se não tendo podido a vida ser definitiva, a morte o pudesse ser. p. 217

[...] o facto evidente de o Cemitério Geral ser um catálogo perfeito, um mostruário, um resumo de todos os estilos, sobretudo de arquitetura, escultura e decoração, e portanto um inventário de todos os modos de ver, estar e habitar existente até hoje [...]. p. 226

[...] é nas ocasiões de mais extremo apuro que o espírito dá a autêntica medida da sua grandeza. p. 237

O espírito humano, porém, quantas vezes será preciso dizê-lo, é o lugar predilecto das contradições, aliás, nem se tem observado ultimamente que elas prosperem ou simplesmente tenham condições de existência viáveis fora dele. p. 268

[...] o certo é que nunca poderá haver sobre o que se vê garantias firmes, as aparências enganam muito, por isso lhes chamamos aparências. p. 268


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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Stanley Krippner - Possibilidades Humanas, 1980


Esse livro é um pouco underground. Digo isto no sentido de que deve-se realmente ter a mente aberta a respeito de novas abordagens teóricas e empíricas sobre a existência, a matéria, o universo e outras tantas questões fundamentais que vivem assombrando a comunidade científica. Traz idéias sobre campos eletromagnéticos, energia, tensão muscular, reservas humanas latentes, etc. Tudo isso através de uma séria e sensata abordagem científica do autor, Krippner. A despeito de crer ou não crer, o importante mesmo é que possamos acrescentar novos referenciais de conhecimentos acessados, a fim de expandir nossas perspectivas e capacidade de articulação. Um livro excelente, que trata principalmente das experiências acerca do potencial humano no contexto da extinta União Soviética.


KRIPPNER, Stanley. Possibilidades Humanas. Trad. Alberto Costa. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988. 400 p.


Ao poder do qual o homem supostamente seria dotado, sob determinadas circunstâncias, de agir sem motivos outros que não a própria ação, é dado o nome de livre arbítrio. A existência de tal faculdade nos seres humanos foi - e ainda é - motivo de muita celeuma nos mais variados níveis. Seja como for, é senso comum que a liberdade de escolha está na razão direta das possibilidades daquele que escolhe; não sendo possível admitir-se um "total livre arbítrio". Por exemplo, vivemos num país onde uma maioria de indivíduos possui um número tão reduzido de possibilidades, que nos é possível prever, com nível razoável de acerto, qual será o "destino" desta ou daquela pessoa. p. 13

Este episódio bizarro demonstra o quão facilmente a mentira pode ser perpetuada uma vez que apareça num periódico. Distorções e mentiras têm vida própria e continuam a erguer suas cabeças feias por longos períodos de tempo antes que se expirem. p. 41

Em nossa conversa, ele especulou que a psi poderia ser uma feição arcaica dos seres humanos que começou a desaparecer a partir do momento que sua utilidade foi minimizada pela linguagem, armas e outras formas de comunicação e proteção. p. 66

Existe um problema de ordem prática proveniente da suposta interação entre o cérebro e o magnetismo solar – a saber, o fato de as manchas solares serem seguidas por distúrbios magnéticos na terra, que resultam em altas taxas de doenças emocionais e nervosas, acidentes, suicídios e ataques cardíacos. Em determinadas partes da URSS, existem alertas médicos e de segurança de âmbito nacional nos dias seguintes a súbitas explosões de atividade solar. p. 69/70

Estamos longe de dizer que podemos fornecer as respostas últimas a todos os problemas. Apenas tomamos um dos caminhos possíveis para revelar uma pequena porção das possibilidades do homem. (Georgi Lozanov, 1978, p. 11). p. 157


Existem três fontes de atração
No amor dos seres humanos;
São elas o espírito, a mente e o corpo.

A mútua atração dos espíritos
Gera a amizade.

A mútua atração das mentes
Gera o respeito.

A mútua atração dos corpos
Gera o desejo.

E a combinação das três
Gera o amor.

[Verso indiano dos Upanixades. Em: VASSILCHENKO, 1977]

Em consonância com seu uso da teoria geral dos sistemas, Vassilchenko definiu o amor como "um sistema dinâmico complexo, baseado na intelectualidade, emoções e no poder do desejo", e observou que o mesmo consiste de uma multidão de variáveis. Em contraste aos sentimentos temporários de desejo, os sentimentos profundos do "verdadeiro" amor permitem que o relacionamento seja de realização e de totalidade. No "verdadeiro" amor, o indivíduo freqüentemente nega as necessidades do ego pessoal e transforma-se através da união com o outro. p. 230

As habilidades auto-reguladoras do corpo são de fato responsáveis por muitas das curas da ciência médica. Nenhuma droga é capaz de curar uma doença a menos que os mecanismos próprios do corpo estejam funcionando de maneira correta. Em conseqüência, podemos considerar que todas as enfermidades, e todas as curas, devem-se a algum aspecto dos sistemas que controlam a auto-regulação biológica. [Hill, 1979]. p. 303

Nosso universo não é composto de partes isoladas; somos feitos da mesma matéria bruta que o restante dele, e respondemos às mesmas forças que dirigem e moldam tudo o mais. As estrelas e a pele estão em contato constante. [Playfaur e Hill, 1978]. p. 306

Pavlov concebia a força da natureza agindo no organismo como um todo e na célula individual, cada um simultaneamente compreendido dentro do outro. A natureza é miniaturizada e materializada no próprio âmago do ser em suas menores partes. Expande-se intimamente para o interior de um universo tão amplo quanto o universo externo macroscópico. p. 329

Ademais, a memória não é apenas um traço de um evento passado, mas também, de forma mais importante, uma pré-condição para a realização de ações futuras (Tikhomirov, 1975).  p. 331

Margineanu (1980) conclui, “existem apenas duas formas de se viver numa ditadura – com menos inferno ao seu redor, mas com conflitos em sua consciência por aceitar sua tirania... [ou] num completo inferno, de maneira particular, aquele da prisão, porém com paz em seu coração por ter permanecido em conformidade com a própria consciência”. (p. 7). p. 336

Seu conceito (de Dr. Bek Ibraev) de “cérebro étnico” e “cérebro superétnico” sugere que com seu campo um indivíduo representa “um neurônio”, o qual pertence ao campo étnico geral. Ele acredita que, sob condições específicas, algumas pessoas (xamãs, por exemplo) são capazes de receber informação deste campo étnico. p. 359



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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Notícia de um seqüestro - Gabriel García Márquez, 1996

Um verdadeiro trabalho de jornalismo histórico do nosso querido escritor García Márquez. Através, principalmente, do relato de um casal vítima da série de seqüestros de personalidades ocorrida na Colômbia nos anos 90 - pelo bando chamado "Os extraditáveis", grupo ligado à Pablo Escobar e ao narcotráfico colombiano - , o autor reconstitui um momento importante da história recente da Colômbia. Transitando entre as diferentes perspectivas dos acontecimentos - ora através dos olhos da mídia, ora dos familiares, ora, inclusive, do presidente colombiano, ora do próprio seqüestrado - García nos proporciona um panorama amplo do que representou para o país os anos de terror vividos naquela década, nos mostrando que não só indivíduos estavam sob tutela dos sequestradores, mas o próprio país se viu como um refém. Tudo isso, claro, narrado por um dos maiores escritores de todos os tempos.

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Notícia de um seqüestro. Rio de Janeiro: Record, 1996. 318 p.

O poder de recuperação talvez seja a fórmula mais cruel da temeridade. p. 198

A vida tinha se encarregado de ensinar a eles que a felicidade do amor não foi feita para que se repouse sobre ela, mas sim para danar-se junto. p. 244



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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Anne Rice - O servo dos ossos, 1996

Uma verdadeira retrospectiva histórico-religiosa. Narra a história de uma entidade religiosa, O servo dos ossos, outrora um humano,  desde sua vida enquanto mortal, durante a antiguidade babilônica, até os tempos modernos, quando, mais uma vez, é despertado. A relação entre o seu despertar e a ascenção em nível mundial de uma estranha ceita religiosa vai sendo desvendada ao longo do livro. Muito bom, Rice é sempre uma boa leitura.

RICE, Anne. O servo dos ossos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. 381 p.

Dos vivos e dos mortos, da terra crua e daquilo que forjado e refinado, tecido e guardado, venha a mim, menos do que grãos de areia, e sem fazer barulho, sem chamar atenção, sem ferir ninguém, o mais rápido possível, ultrapassando qualquer barreira à minha volta, e vista-me de veludo vermelho , roupas macias de cor do rubi. p. 34

- Era isso que eu queria dizer, que temos superstições – ele disse. – Quando, impensadamente, eu perguntei sobre seus pais, eu queria dizer que você acredita em certas coisas mas não acredita nelas. Você vive numa dupla disposição de ânimo. p. 34

- Mas nós tínhamos que sobreviver na Babilônia. Tínhamos toda a intenção de voltar ricos para a nossa terra. Tínhamos que ser fortes. E isso significava o que sempre significou para os hebreus. Você tem que ser suficientemente forte para se dispersar sem ser destruído. p. 53

- Só existe um propósito na vida: dar testemunho de e compreender o máximo possível a complexidade do mundo – sua beleza, seus mistérios, seus enigmas. Quanto mais você compreende, quanto mais você olha, mais você aproveita a vida e mais você se sente em paz. É simples assim. Todo o resto são prazeres e jogos. Se uma atividade não tiver como base “amar” ou “aprender”, ela não tem valor. p. 139

Sem memória não pode haver discernimento. Sem amor não se pode apreciar nada. P. 378

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A corporação, 2003

CINEASTA: MARK ACHBAR, JENNIFER ABBOTT
GÊNERO: DOCUMENTÁRIO/HISTÓRICO
ORIGEM: CANADÁ
Esse documentário deveria ser obrigatório! É realmente fantástico. Ele trata, evidentemente da "corporação", essa instituição que causa tanta controvérsia e polêmica nos dias de hoje. Mas o que é exatamente "a corporação", qual sua natureza, qual sua função? Em que medida ela foi desvirtuada com o passar dos anos?
Baseado no livro homônimo de Mark Achbar, o documentário consegue expandir vertinosamente alguns conceitos chaves para compreensão do mundo em que vivemos e, sobretudo, da economia em que vivemos.

Disponibilizo o link para o download do documentário:

Créditos para o link de download: 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Do amor e outros demônios - Gabriel García Márquez, 1994


Uma incrível visita ao mundo colonial na américa espanhola. Tendo como ponto de partida a mordida de um cão raivoso, o autor traz o debate entre os limites epistemológicos da ciência, da religião e da loucura numa época e contexto onde discrepantes elementos culturais estavam entrando em contato. Sobre o pano de fundo do Santo Ofício, a história ainda aborda de forma delicada e única a questão do celibato. Vale a leitura!

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Do amor e outros demônios. 8. ed. Rio de Janeiro: Record, 1995. 221 p.

- O corpo humano não foi feito para os anos que a pessoa é capaz de viver. p. 31

- É pena, porque a falta de comunicação com os cavalos atrasou a humanidade. Se conseguíssemos rompê-la, poderíamos fabricar o centauro. p. 44

- Nenhum louco é louco para quem aceita as razões dele. p. 55

- Não é que a menina seja negação para tudo, o que há é que ela não é deste mundo. p. 68

- Nada é mais útil que uma dúvida em tempo. p. 123

- Falou de Yucatán, onde tinham construído catedrais suntuosas para esconder as pirâmides pagãs, sem perceber que os aborígenes acudiam a missa porque debaixo dos altares de prata seus santuários continuavam vivos. Falou da mixórdia de sangue que tinham feito desde a conquista: sangue de espanhóis com sangue de índios, destes e daqueles com negros de toda laia, até mandingas muçulmanos, e perguntava se tal promiscuidade cabia no reino de Deus. p. 153